Caixão não tem gaveta PDF Imprimir E-mail
Escrito por Itamaury Teles   
09 de junho de 2008
Depois de havermos cumprido bem o nosso dever, convém ressaltar, o grande segredo da vida é levá-la sem grandes preocupações, ou mesmo sem as pequenas, já que, pela etimologia desta palavra, preocupar é ocupar-se antes do tempo.
Por isso é que somente agora, já aposentado, venho me ocupando desses temas ditos gasosos ou supérfluos, que interessam pouco à grande maioria que não tem tempo para essas miudezas.
Confesso que minhas reflexões preferenciais são sobre temas julgados importantes para o bem-viver, até como forma de ganhar sobrevida, controlando o estresse, que teima em querer alterar minha pressão arterial. Além da palavra preocupação propriamente dita – como gostavam de dizer os professores secundaristas -, tenho-me ocupado também com o significado intrínseco da palavra ambição, cujo prefixo ambi, de origem latina, significa “dois ao mesmo tempo”, conforme pode-se ver no dicionário Caldas Aulete. Grosso modo, é como se quiséssemos tudo em dobro, por dois.
A bem da verdade, a ambição é fator deletério à natureza humana e bem que poderia ser incluída no rol de pecados capitais, aproveitando-se de que o Vaticano criou precedente recente neste sentido.
Ao fazer essas elucubrações filosóficas, corro o risco de julgarem-me mal e acharem que  nasci em berço esplêndido, que nunca tive preocupações na vida, que não sei o que é sofrimento. Ledo engano.
É pura balela achar que as pessoas já nascem predestinadas a ocupar altos cargos, que  diplomas universitários e de pós-graduação caem do céu, que as línguas estrangeiras são aprendidas sem queima de fosfato etc., etc. Ora, nada disso vem por osmose, sem esforço, sem muito estudo e dedicação.
Mas, chega-se a uma fase na vida – e aqui reside o pulo do gato – que o importante é aproveitá-la intensamente e não se matar precocemente, em doses homeopáticas ou abruptamente,  querendo ter sempre mais, numa competição de egos inflados, onde os fins justificam os meios.
Costumo dizer para os amigos mais chegados, que fazem parte das minhas inúmeras confrarias, que a vida é uma via de mão única. Não há retorno. A única opção que se tem é seguir em frente. O nosso sucesso ou fracasso será o resultado das nossas escolhas ao longo do caminho...
Mas, já tendo feito meu dever de casa, não queiram saber como sou cobrado por querer levar a vida mais leve, mais contemplativa, fazendo apenas o que me dá prazer, como prosear, fazer caminhadas, ler meus livros e jornais diários e escrever crônicas e comentários na imprensa. Não entendem que é uma escolha que fiz!
- Com um currículo deste eu seria executivo numa grande empresa e ganharia, no mínimo, R$ 50 mil por mês, fora benefícios – foi o que ouvi da última vez.
O sentimento que me assalta, nesses momentos, é de dó, de profunda piedade de quem assim pensa, pois, normalmente, esses são os que crêem que caixão tem gaveta. São os que se preocupam e ambicionam o tempo todo.
Mas tudo na vida tende ao equilíbrio, de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde.
Com efeito, a sabedoria consiste em conseguir um patrimônio tal que este seja servo do seu dono, suprindo-o em suas necessidades, na justa medida. Ao contrário, quando se guarda muito, além do que recomenda o bom senso, inicia-se aí o infortúnio do ambicioso, que passa a ser – sem que às vezes perceba – escravo do patrimônio em excesso. E aí, “bye, bye” para a sua “dulce far niente”, para a sua tranqüilidade de balangador de rede.
Talvez por isso, nas ricas varandas de luxuosos prédios e mansões sempre impera o vazio e a solidão. Repare.
 
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