O Benzedor do Rebentão PDF Imprimir E-mail
Escrito por Itamaury Teles   
22 de setembro de 2008
Soube que o Zé Ferreira, de uma hora pra outra, ganhou fama de bom benzedor, lá pras bandas do Rebentão dos Ferros. Quase não acreditei, mas vindo dele tudo era possível. O seu conceito na região era de um grande potoqueiro, dado a exageros inverossímeis.
Criaram por lá até um bordão, muito utilizado quando alguém era apanhado falseando a verdade. Nessas oportunidades, sempre diziam ao mentiroso:
- Ê, Zé Ferreira!...
Ele nem se importava com aquilo e até mesmo fazia uso da frase, quando se flagrava em uma lorota, num enredo mal arrematado: - Ê, Zé Ferreira!
Um dia o encontrei na cidade, indo para a casa de Geraldina Reis, para uma prosa amiga e um cafezinho adoçado com rapadura, em caneca esmaltada, a ele reservada. Não perdi a oportunidade e, entre uma conversa e outra, puxei assunto, para averiguar se o boato era realidade. De chofre, o interpelei:
- Eu soube que você agora é benzedor, anda rezando pra cobra sair de mangueiro. É verdade, Zé?
- É, moço, eu tem rezado...
- E resolve?
- É, graças a Deus, das vez que eu tem rezado tem dado certo. Eu já fui ofendido três vez de cobra e num tomei uma Caspirina! Nem um chazinho!
- Mas também não era cobra venenosa, era? – fiz pouco caso.
- O quê? A cobra mais venenosa do mundo foi a que me pegou: coral, cascavel, jeracuçu de papo amarelo. De dois metro e vinte! Nós era doze foiceiro. Eu tava trabaiano no mêi do eito. Trem rúim de roçá, moço. Sujo. Mas quando tem de acontecê num tem jeito. Eu fui bebê uma água na cabaça. Uma distança cumo daqui na cancela. Tava dento daquela faxinona assim e eu num vi e ela me pegou. Da segunda vez foi caçano tatu. Foi a cascavel. E eu num gosto de caçá tatu. Eu tava caminhano calçado precata e ela me pegou no peito do pé. A coral me pegou na batata da perna e a jerecuçu já me pegou nessa altura aqui...
- E não teve problema algum?
- Não. Só em ocasião de lua o sangue me avexa muito. Na lua nova, na cheia. Na minguante, não. Minguante é bão! Eu digo a ocê que elas me pegou, eu tem tistimunha. Eu rezei na hora e ainda trabaiêi atééé uma hora da tarde. Eu güentei puxá inxada. Passei o ramo e pronto!
- Você também reza pra quebranto, espinhela caída?
- É, eu tem rezado. O pessoal me pricura muito pra isso. Minha mãe me insinou. Minha mãe era mestra nessas coisa. Ela rezava. Cruzivamente, ela rezava daqui aonde alcançá. Ela mandava o ramo e o ramo ia. Daqui eu rezei na fazenda do “seu” Anrique.
- Não precisou nem ir lá?
- Precisou não! Eu num fui não. Eu sabia a posição da fazenda dele! Ele disse que tava matano muito trem. Depois num matô mais não.
- Cobra?
- Cobra!
- E ler a mão, você sabe?
- Não. Eu conheço as parte dela. Da mão. Aquilo é o seguinte: tem os dia própio.  Cende a luz e tal... Se ela cendê e num apagá, cê fica suntano. Se ela cendê e pagô, cê pode rezar. É batata!
- Ê, Zé Ferreira! – disse a ele – e saí rindo rua abaixo...
 
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